Defensora Pública do Estado de São Paulo e vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura nos anos de 2023 e 2025, a escritora Mariana Salomão Carrara esteve, nesta segunda-feira (10), na sede administrativa da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) para o 2° Encontro Literário promovido pela Instituição.
Autora dos livros Se deus me chamar não vou (2019), É sempre a hora da nossa morte amém (2021), Não fossem as sílabas do sábado (2022), A árvore mais sozinha do mundo (2024) e Cláudia Vera Feliz Natal (2026), este último seu lançamento mais recente, Mariana refletiu, durante o evento, sobre o papel da literatura, a atuação jurídica no Brasil e a compreensão do mundo a partir do olhar do outro.
Além da autora, participaram da mesa de debate a Subdefensora Pública-Geral da DPRJ, Suyan dos Santos Liberatori, a Defensora Pública da União, Vivianne Moura de Oliveira Ribeiro, e a professora da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ) e servidora da DPRJ, Carla Cuellar. O encontro teve como ponto de partida o livro mais recente da autora, Cláudia Vera Feliz Natal. Narrado em primeira pessoa, a obra traz a perspectiva de um jovem juiz que, para explicar a demora na condução de um processo delicado, escreve uma espécie de defesa autobiográfica. Ao revisitar sua trajetória profissional em três comarcas do interior do Mato Grosso — Cláudia, Vera e Feliz Natal —, o narrador expõe as fragilidades e as contradições da própria estrutura do sistema de Justiça, um tema de extrema importância para a escritora.
— A escolha deste personagem me permitiu abordar, com humor mas também de uma maneira um pouco trágica, uma realidade na qual os profissionais da área jurídica se distanciam dos que estão diante deles. Quando falamos de Justiça, pode ser muito pesado. O humor não tem a função de diminuir a gravidade destes temas, pelo contrário, ajuda o leitor a enxergar a profissão por diferentes ângulos — explica a escritora.
O personagem construído por Mariana Carrara mistura o juridiquês e a tentativa de conferir elegância ao próprio discurso com passagens que apresentam uma linguagem mais banal, focadas em seus sentimentos e em sua consciência, o que causa um contraste e produz situações cômicas, revelando a distância entre a linguagem institucional da Justiça e a experiência cotidiana do trabalho.
Intersecção entre a Defensora Pública e a literatura
A conversa também revelou uma aproximação entre a escrita literária e o trabalho desenvolvido pela Defensoria Pública. Todos os livros da autora, narrados em primeira pessoa, significam, para ela, um aprofundamento na perspectiva de seus personagens e uma tentativa de compreender o mundo a partir de olhares que, muitas vezes, podem ser limitados ou contraditórios. Em sua escrita, ela parte de uma visão particular para imaginar o que poderia, de fato, estar por trás de determinadas ações ou sentimentos.
— Acho que a literatura e a Defensoria Pública estão intimamente relacionadas quando pensamos em olhar para o outro. Como profissionais, precisamos entender que existem várias versões de uma mesma história. Elas serão diferentes dependendo do ponto de vista de cada um, com uma perspectiva que, muitas vezes, é completamente diferente da nossa. Não sei que escritora eu seria se não fosse uma Defensora Pública, e não sei que Defensora Pública eu seria se não fosse uma escritora — afirmou.
Ao promover a segunda edição do evento Encontro Literário: Círculo de Debates, a Instituição reafirma a importância de diálogos que reflitam sobre a cultura e o exercício do Direito. Mais do que discutir obras da escritora, o evento propôs uma reflexão sobre o sistema de Justiça e sobre o fazer literário, que mantém vivo o exercício de enxergar o outro para além dos papéis e dos processos.
Texto: Ana Clara Prevedello