
Assistente virtual da Defensoria Pública do Rio de Janeiro concorre a prêmio de inovação, que será entregue em novembro, e já registra 945 mil conversas desde o lançamento.
A Defensoria Pública do Rio de Janeiro (DPRJ) apresentou, nesta quarta-feira (7), no Summit de Inovação do ExpoJud, em Brasília, o case da MarIA, assistente virtual da Instituição. A ferramenta também concorre a um prêmio de inovação, cuja premiação será realizada em novembro. A apresentação no Summit foi conduzida pelo secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação e defensor público Anderson Marinovic.
Diante de uma sala cheia, Anderson Marinovic iniciou a palestra lembrando o conceito africano de Ubuntu, filosofia que traduz a ideia de que nossa existência se constrói na relação com o outro — “eu sou porque nós somos”. A mensagem foi associada ao conhecido provérbio “sozinhos, vamos mais rápido. Juntos, vamos mais longe” e serviu para agradecer às equipes da DPRJ e aos parceiros da UFRJ envolvidos na construção da ferramenta.
— A gente não faz nada sozinho. A MarIA é resultado de muitas pessoas pensando e trabalhando juntas — destacou o defensor público durante a apresentação.
Criada inicialmente para agilizar o atendimento em ações de alimentos, a MarIA nasceu de um desafio concreto: reduzir o tempo e as barreiras enfrentadas principalmente por mulheres que precisavam recorrer à Defensoria. Antes da ferramenta, o primeiro atendimento para uma ação de alimentos podia levar até três meses. Para quem depende do trabalho diário e enfrenta dificuldades para se deslocar, reunir documentos ou comparecer presencialmente, esse tempo representava mais do que espera: significava dificuldade real de acesso à Justiça.
Pelo WhatsApp, a MarIA orienta o usuário em linguagem simples, recebe documentos e conduz, passo a passo, o atendimento. Caso haja interesse em acordo, a demanda pode ser encaminhada ao polo de mediação. A ferramenta também identifica situações de violência doméstica para que esses casos recebam tratamento diferenciado e sejam direcionados à rede de proteção.
Tecnologia revelou uma demanda até então invisível
Um dos principais resultados apresentados no Summit foi uma descoberta que contrariou uma expectativa inicial da própria Instituição. A Defensoria imaginava que a ampliação do atendimento digital reduziria a procura pelos canais tradicionais. Isso não aconteceu. A MarIA revelou a existência de uma demanda reprimida: pessoas que precisavam da Defensoria, mas que, por falta de tempo, recursos ou oportunidade, simplesmente não conseguiam chegar até ela.
— Quando disponibilizamos a MarIA, imaginávamos que haveria uma redução da procura pelos nossos canais presenciais. O que descobrimos foi muito mais significativo: existia uma demanda reprimida que nós ainda não conseguíamos enxergar. Eram, principalmente, mulheres que precisavam acessar seus direitos, mas não tinham tempo, recursos ou oportunidade para chegar até a Defensoria. A tecnologia não substituiu o atendimento. Ela abriu uma nova porta de acesso à Justiça para quem estava do lado de fora — afirmou Anderson Marinovic.
Os próprios relatos apresentados durante a palestra mostraram essa nova realidade: mulheres utilizando a ferramenta à noite, nos fins de semana, no ônibus e até em hospitais, momentos em que dificilmente conseguiriam buscar atendimento presencial.
Desde que foi disponibilizada ao público, em 9 de março, até 30 de setembro, a MarIA contabilizou 945 mil chats e 33 milhões de mensagens trocadas, alcançando uma média aproximada de 120 mil pessoas atendidas por mês. A ferramenta apresenta ainda 71% de resolutividade e avaliação positiva de 93% entre bom e ótimo.
Durante a apresentação, o defensor público Anderson Marinovic também destacou que o nome MarIA foi concebido em homenagem a Maria Nice, primeira mulher defensora pública do Brasil, que tomou posse em 1958 e dedicou sua trajetória à defesa das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Mais do que incorporar tecnologia ao atendimento, a experiência da DPRJ demonstra como a inovação pode revelar necessidades antes invisíveis e ampliar efetivamente o alcance de uma política pública.
Texto: Fabiana Leite